Pandemia cria um novo modelo de relações entre os países

A pandemia forjou um novo modelo de relações entre os países, que passa por um equilíbrio entre a interdependência e uma necessidade de repensar as prioridades nacionais. A avaliação é do ex-embaixador do Brasil na Inglaterra e nos Estados Unidos, Rubens Barbosa.


“Cada país terá de ver três coisas: seu interesse direto em relação ao mundo, sua coordenação regional e sua coordenação multilateral”, afirmou à revista da Abrig.

O embaixador disse estar muito preocupado com a falta de uma agenda estratégica do Brasil para esse novo mundo pós-pandêmico. “Estamos voltados a problemas pontuais, políticos, econômicos, briguinhas internas. E isso é uma distração sobre o que o Brasil deveria estar pensando na parte de tecnologia, na parte de inovação, na reindustrialização, no fortalecimento do comércio exterior, com simplificação, com abertura. Quer dizer, você tem toda uma agenda para ser ajustada às novas condições que estão se delineando aí no mundo, mas, pouca gente está pensando nisso”, afirmou. Veja abaixo a entrevista de Rubens Barbosa:






ABRIG: Como fica a integração dos países no pós-pandemia?


RUBENS BARBOSA: Vai ser um mundo muito diferente. Não temos a noção completa por não saber quanto tempo vai durar essa pandemia. Nós estamos vendo aí uma terceira onda e, ainda não sabemos o efeito da pandemia sobre a economia global e sobre o comércio internacional. O que sabemos é que a China se beneficia muito desse momento, porque ela emerge com uma força muito grande. E, os Estados Unidos, que estão injetando US$ 3 trilhões para reativar a economia. Então, por conta desses dois pólos, o comércio internacional vai continuar a crescer diante da maior demanda mundial. Mas, a globalização e as regras vão mudar muito.


ABRIG: Em qual sentido?


RUBENS BARBOSA: Emmanuel Macron chamou de soberania autônoma. A Europa, os Estados Unidos e China estão preocupados com a vulnerabilidade das suas economias, pela dependência de produtos que eles consideram estratégicos de terceiros países. Então, no caso da China, há uma preocupação com toda tecnologia que afeta o 5G. Os Estados Unidos estão fazendo isso em várias áreas: vacinas, saúde, área industrial. E isso também na Europa. Mas, aqui no Brasil, não. Então, a distância entre os países que estão dentro da inteligência artificial, do 5G, da alta tecnologia na área de saúde, vai aumentar em relação aos países que estão fora disso. Então, é um novo que está se delineando com a tecnologia e com a inovação, em primeiro lugar. Aqui no Brasil, nós estamos, ainda, muito longe disso.


ABRIG: Qual o nível de preocupação que o senhor tem em relação a essa agenda estratégica para o Brasil? 


RUBENS BARBOSA: A minha preocupação é muito grande. Estamos voltados a problemas pontuais, políticos, econômicos e briguinhas internas. E isso é uma distração sobre o que o Brasil deveria estar pensando na parte de tecnologia, de inovação, na reindustrialização, no fortalecimento do comércio exterior, com simplificação, com abertura. Quer dizer, você tem toda uma agenda para se ajustar a essas novas condições que estão se delineando no mundo. O problema é que, aqui no Brasil, tem pouca gente pensando e vendo o que está acontecendo no mundo. Nós vamos ter dois tipos de países: os que estão na inteligência artificial e os países que não estão na inteligência artificial. Quem ficar para trás vai ser relegado a uma posição menor dentro do contexto internacional.


ABRIG: E a escalada com relação ao populismo, não só aqui no Brasil, mas também no mundo, pode afetar a relação entre os países no pós-pandemia?


RUBENS BARBOSA: A rapidez dos acontecimentos e a gravidade dos problemas na sociedade pode forçar os “salvadores da pátria”, os políticos populistas, a trazerem mensagens que resolverão todos os problemas, só que sem dizer como perderão espaço.


ABRIG: E, qual tipo de protagonismo os Estados Unidos vão ter neste futuro próximo? O fato de eles injetarem tanto dinheiro na economia, US$ 3 trilhões, pode ter um efeito de aprofundar desigualdades? 


RUBENS BARBOSA: Eu acho que eles não tinham alternativa a não ser injetar esse volume imenso de dinheiro. Mas, é um dinheiro que cai também na mão da população. Pode até ser que alguma coisa caia no setor financeiro, mas, você vai ter investimento em infraestrutura, vai ter dinheiro para pequena e média empresa. Por outro lado, a Secretária do Tesouro (Janet Yellen), quer que os Estados Unidos negocie com o mundo inteiro uma alíquota mínima de imposto para não ter uma vantagem comparativa em relação às empresas norte-americanas, que vão ser taxadas muito fortemente para cobrir uma parte desse dinheiro que tá sendo colocado na economia.


ABRIG: O melhor caminho para esse novo mundo é o multilateralismo, a interdependência dos países, ou é você se fechar e buscar as soluções internas aqui aos problemas?


RUBENS BARBOSA: É tudo isso junto. Não tem uma receita única, você tem que começar a ver quais são suas áreas estratégicas. Nesse mundo novo, cada país terá de ver três coisas: seu interesse direto em relação ao mundo, sua coordenação regional e sua coordenação multilateral. E, se coordenar em nível multilateral, para se adaptar às novas regras que vão aparecer no comércio, no meio ambiente.


Rubens Barbosa foi embaixador do Brasil em Londres de janeiro de 1994 a junho de 1999 e em Washington de junho de 1999 a Março de 2004. Ocupou o cargo de Presidente da Associação dos Países Produtores de Café (APPC) em Londres, por cinco anos. É presidente da Associação Brasileira da Indústria do Trigo.



*Os conteúdos publicados são de inteira responsabilidade de seus autores. As opiniões neles emitidas não exprimem, necessariamente, o ponto de vista da Abrig.  


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