Perspectivas de sucessão no Brasil

O economista e CEO do Instituto Ideia, Maurício Moura, detalha os cenários que apontam quatro fatores que tornam o debate econômico crucial para o desfecho da
eleição do ano que vem. Ele ainda cita o peso da pandemia na decisão do eleitor e como o eleitor estará engajado em torno da oposição e do governo.

Abrig: Como você vê o cenário eleitoral para 2022?


Maurício Moura: O diferencial da eleição é que ela vai orbitar em torno da popularidade do presidente Jair Bolsonaro. Temos um presidente que tem, no mesmo período comparado com outros presidentes brasileiros que tentaram a reeleição pós-redemocratização, uma avaliação negativa superior ao Fernando Henrique Cardoso (PSDB), em 1997, à Dilma Rousseff (PT), em 2013, e ao Lula (PT), em 2005. Por outro lado, ele é um presidente que mesmo numa profunda crise econômica e sanitária é bastante resiliente e continuou com 25% de aprovação em todas as pesquisas públicas.


A grande questão daqui para frente é se o Bolsonaro vai ser capaz de aumentar sua popularidade e se tornar mais competitivo, ou se ele vai piorar a popularidade e fazer com que a eleição ganhe uma alternativa.


Abrig: E o fator pandemia quanto tem o peso disso?


Maurício Moura: O cenário da pandemia em eleições carrega incertezas. A eleição durante a pandemia tem um fator importante de avaliação da população e aconteceu em vários lugares do mundo, o mais emblemático é o de Donald Trump, nos Estados Unidos. Ele perdeu a reeleição em função da gestão da pandemia. A gente também teve o presidente da França, Emmanuel Macron, que o partido dele foi penalizado nas eleições municipais. E agora o primeiro-ministro indiano que, apesar de ter uma popularidade alta, perdeu as eleições em alguns estados da Índia. Então é uma variável de imprevisibilidade.


Abrig: E quanto pesa o desempenho da economia nisso?


Maurício Moura: Nessa eleição pesa muito. Talvez seja a eleição onde o peso da economia seja maior desde 1994, no Plano Real, que foi o trator da eleição de FHC. Acredito em quatro pontos únicos de 2022 em relação à economia, mais uma vez assumindo que haja melhora na situação sanitária. Primeiro, estamos com alto nível de desemprego no país. O segundo ponto são os negócios fechados. O terceiro ponto é que temos uma economia informal no Brasil, que obviamente cresceu com a pandemia e produz externalidades que vão precisar ser debatidas e vão precisar que os candidatos a presidente apontem caminhos para resolvê-las. Quarto é o fator a transferência de renda, o debate da transferência de renda ganhou um patamar mais elevado. O governo está apresentando um programa novo de transferência de renda que vai ser debatido durante a campanha e depois da pandemia, no imaginário da opinião pública, a questão da transferência de renda ganhou um peso maior pois a pandemia trouxe outras incertezas. Então, acho que essa combinação de fatores deve fazer com que o debate econômico seja protagonista de 2022.


Abrig: Sobre um projeto alternativo e a chance da esquerda. Quais as chances terão na eleição?


Maurício Moura: Primeiro, a alternativa, se vier, virá da direita. Quando a gente olha as pesquisas públicas, 40% do eleitorado não gostaria de votar nem no Lula e nem no Bolsonaro. Desses 40%, 10 pontos percentuais são um eleitorado bastante cativo do Ciro Gomes. Inclusive, é um eleitorado que quando você olha o desempenho do Ciro Gomes em várias eleições presidenciais, o perfil dos eleitores dele hoje são bastante similares, ele é um eleitor mais escolarizado, mais metropolitano. Aí contamos 30 pontos percentuais que não querem votar nem no PT e nem no Lula. Esses 30 pontos percentuais são basicamente de direita. Temos gente lava-jatista que gostaria de ver o Moro como candidato, temos o eleitorado do PSDB que ainda é muito forte no interior de São Paulo. Há um eleitorado que surgiu em 2018 que votou no NOVO, no João Amoedo, que é mais liberal, é um percentual de 2 ou 3 por cento, mas pode fazer diferença. E lembrando que para uma terceira via, precisamos de uma piora da popularidade do Bolsonaro e o perfil de quem o apoia está longe de ser da esquerda.



Mauricio Moura é pesquisador e professor na The George Washington University, nos Estados Unidos, da área de Políticas Públicas e Análises Eleitorais. É mestre em Social Sciences na University of Chicago, em political management na The George Washington University e doutorado em Economia e Política do Setor Público na Fundação Getúlio Vargas - FGV/SP com extensão na The George Washington University.


*Os conteúdos publicados são de inteira responsabilidade de seus autores. As opiniões neles emitidas não exprimem, necessariamente, o ponto de vista da Abrig.  


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